sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Lembranças de Teresina antiga: os botões balêlo de Seu Gozozo



Meu nobre amigo Eurípedes de Aguiar estava tratando nesta quinta-feira 12 de janeiro no Facebook sobre o imóvel da rua Areolino de Abreu que desabara no dia anterior. Vários amigos apresentaram questionamentos sobre a idade do casarão e seus antigos moradores. Até que Eurípedes lembrou-se de um personagem de Teresina dos seus anos de menino que se tornou muito conhecido por um fato inusitado e que se transformou em lenda. Dirigindo ao amigo Dubá Leitão, ele pergunta: “Dubá, essa casa que desabou parcialmente no centro de Teresina era a antiga mercearia do Seu Gozozo do botão balêla?”, ao que Dubá responde: “Justamente.” O diálogo prossegue com Eurípedes afirmando: “Antes de fazer a pergunta, esclareço que estou falando de lenda. E lenda, pelo menos em minha opinião, é a história que ficou. Ou a versão, como queiram. Portanto, não estou dizendo que aconteceu ou que aconteceu com certa pessoa. Dito isso, pergunto: alguém sabe porque Seu Gozozo ficava puto quando alguém perguntava se tinha botão baleiro?”

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Então Eurípedes de Aguiar conta a seguinte história: “Seguinte. Lembro mais uma vez que é uma lenda, e lenda tanto pode ser história real como uma história parecida com a real, ou até mesmo uma completa fantasia bem diferente do que aconteceu. Bem, dizia a lenda que um certo Seu Gozozo, um senhor já bem velhinho, tinha uma quitanda ali pelo centro de Teresina, que funcionava na esquina de sua própria residência. Quitanda, para quem não sabe, é um armarinho que vende também alimentos (arroz, feijão, açúcar, etc) e demais utilitários para casa, como velas, lamparinas, querosene,álcool, etc. Algumas até vendiam uma cachacinha. Meu avô, José Gonçalves Machado, Seu Zuza Machado, teve uma no cruzamento da Lisandro Nogueira (naquele tempo, Rua da Glória), com Arlindo Nogueira). Bem, nas quitandas, muitas mercadorias acabam encalhando, sobretudo de armarinho. Saem da moda e ninguém compra mais. Foi o caso de umas caixas de botões de madeira que estavam encalhados na quitanda do Seu Gozozo. Um belo dia, Seu Gozozo está limpando os tais botões, imaginando se não seria melhor jogar fora, já que estavam há mais de 15 anos encalhados, quando entra um moleque sem vergonha, que pede um dos botões para dar uma olhada. Vendo que se tratava de botões baleiros, dos grandes e de todas as cores, como quem não quer nada, fala que achou bonito e pergunta o preço. Seu Gozozo, grande comerciante na juventude, vê naquele menino idiota uma oportunidade de vender alguns daqueles botões encalhados e oferece por uma ninharia. O menino pede 30 botões, paga e dispara rua afora. Chega na praça, encontra a turma e vende todos os botões por vinte vezes o preço que comprara de Seu Gozozo. Não conta para ninguém onde tinha comprado, sai despistando, dispara por uma rua, dobra por outra, sempre olhando para trás para não ser seguido e chega novamente na Quitanda, onde, inventa que sua mãe é costureira e quer 100 botões para fazer farda de colégio. Seu Gozozo acha estranho fazer farda de menino com botão de terno, de casaca, mas, enfim, deixa para lá. O certo é que está mandando aqueles botões para frente. Quando o menino ia saindo, Seu Gozozo ainda falou como garantia: não tem troca e nem devolução. Só que, por mais cuidado que o menino sem vergonha tinha tomado, ele foi seguido. E, mal ele saiu da quitanda, chegaram mais dois pedindo botões. E seu Gozozo, pensando estar se dando bem, foi vendendo. Mais meninos, mais vendas, até que os botões acabaram. Aí, chegou um último menino perguntando pelos botões. E Seu Gozozo, depois de dizer que já tinha acabado, resolveu perguntar por que tanto interesse por aqueles botões velhos. O menino disse os botões eram ótimos para jogar e estavam vendendo por (um valor 20 vezes o que vendia o Seu Gozozo). Aí, Seu Gozozo enfezou de vez, achando que tinha sido enganado. Só que a notícia já tinha se espalhado pela cidade e chegava menino de todo canto na quitando de Seu Gozozo pedindo botão baleiro. Seu Gozozo começou a dar uns gritos e colocar os meninos para fora, mas a coisa continuava e, depois que descobriram a história toda, passaram a fazer só de sacanagem, e somente meter a cabeça na porta e gritar: ‘Seu Gozozo, tem botão baleiro?’ E Seu Gozozo pegava um peso de 1 Kilo e mandava na cabeça do moleque sem vergonha. Graças a Deus, nunca acertou a cabeça de ninguém, porque, então, a lenda não seria uma lenda engraçada (menos para o Seu Gozozo), e sim um lenda trágica. Salvo algum engano e algum erro de redação pela pressa, essa é a lenda que eu soube. E, nas minha lembranças, Seu Gozozo era um velhinho magrinho, gente boa, muito educado, prestativo e gentil. E eu nunca tive coragem de perguntar a ele por botão baleiro.”

Publicado originalmente no Facebook de Eurípedes de Aguiar >>> ACESSE AQUI

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